quinta-feira, 8 de maio de 2014

Para lembrar, perante viver, por não esquecer...


Descrição para cegos: Antiga certidão de óbito sobre alguns jornais.
Imagem reproduzida do livro Direito à Memória e à verdade (2007)

Se tomarmos como base a importância da História enquanto alicerce na reflexão de valores e transformação social, talvez a gente consiga compreender a dimensão do Direito à Verdade e à Memória. 

Para quem não conhece, esse direito busca solucionar os casos de desaparecimentos, mortes, opressões que aconteceram no Brasil e foram esquecidos ou não desvendados pela queima de arquivo, alteração de documentos, ou seja, pelo governo/poder ter ocultado e até manipulado a verdade. E vai mais além, o Direito à Verdade e à Memória visa facilitar o acesso à informação, possibilitando, assim, a descoberta de caminhos, pessoas, que possam contribuir para a ressignificação do passado. 

Quase 500 nomes formam uma lista de pessoas desaparecidas só no período da Ditadura Militar. Pessoas que lutaram, opinaram, agiram. Pessoas sequestradas, torturadas, mortas e que sumiram sem deixar nenhuma pista. As cinzas dos arquivos queimados tiveram mais dignidade do que as tantas pessoas enterradas em covas clandestinas no nosso país e até fora dele. Mais dignidade ainda do que a família dessas pessoas, muitos até hoje sem entender como perdeu um ente querido, e mais, sem ter tido sequer o direito de sepultá-lo. 

Mas vale salientar que, ao contrário do que muitas pessoas pensam, o Direito à Verdade e à Memória não olha apenas para os acontecimentos relativos ao regime militar, nem o Brasil de hoje foi construído apenas em cima da história que os livros da escola contam. Índios, mulheres, negros, homossexuais, dentre outros grupos étnicos ou sociais, tiveram sua história escrita pela opressão, discriminação e tortura. Por trás do "Brasil verde e amarelo" existe um "Brasil vermelho", marcado pelo sangue derramado e pela violência das camadas de poder. E é justamente o resgate de memórias e a busca [incansável] pela verdade que pode propiciar a justiça e, ainda que minimamente e tardiamente, consertar o mal causado a famílias, grupos sociais, culturas e etnias. 

Re-significar o passado. A investigação desses arquivos do passado não só permite encontrar pistas sobre o paradeiro das pessoas desaparecidas, mas também é uma porta de acesso a novas histórias. Pelo relato de pessoas e pelas peculiaridades encontradas nesses documentos, se pode escrever novas faces de uma mesma história. 

Significar o presente. O resgate da história, a busca por novas memórias pode também dar sentido às atuais lutas sociais. Mais que isso, a partir da luta por esse resgate social, podemos re-significar também o futuro, com um novo jeito de fazer história, de refletir os nossos valores sociais no decorrer do tempo.


Andrezza Carla

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